A constatação de que o fole de 8 baixos na Paraíba está em crescente desuso suscitou convênio de proposta nº 046097/2015 entre o IPHAN e a Associação Cultural Balaio Nordeste. A proposta era de traçar, ainda que de forma inicial, um quadro mais preciso da situação dos
folistas e das condições em que se faz uso do instrumento neste Estado, a fim de permitir ao IPHAN a elaboração de um conjunto de ações para proteção e continuidade dos saberes e fazeres a ele relacionados.

Curiosidades sobre o Fole de 8 Baixos


O Fole de 8 Baixos, instrumento harmônico e melódico de origem europeia, criado em 1829 pelo vienense Cyrill Demian, tem como característica principal a bissonoridade, ou seja, quando abre produz uma nota e quando fecha, produz outra. Ele foi trazido para o Sudeste brasileiro por imigrantes europeus, especialmente italianos e alemães, em sucessivas levas migratórias, a partir de meados do século XIX. No Sul do Brasil, ganhou diversos nomes, gaita de duas conversa, Acordeona de oito baixo, mas ficou conhecida como gaita-ponto e constituiu um repertório baseado por danças europeias com um traço nacional, como a polca e a mazurca.


A chegada ao Nordeste brasileiro é também incerta, mas sabe-se que ela já está presente no último quarto do século XIX. Aqui adquiriu outros nomes como fole de 8 baixos, concertina, realejo, harmônica ou pé- de-bode. Popularizou-se no Nordeste brasileiro como instrumento preponderante na animação de festas como batizados, aniversários, casamentos ou bailes rurais e urbanos. Dividia o cenário das animações das festas com outros instrumentos melódicos como o pife e a rabeca,sendo também um dos instrumentos predecessores na execução dos ritmos das matrizes do forró.

A rápida aceitação, tanto no Sul quanto no Nordeste deveu-se a sua rusticidade (instrumento que segurava a afinação por muito tempo), tamanho pequeno que facilitava o transporte e pelo fato de ter um som alto, propício para a animação das festas. Em função dessas características mostrou-se mais vantajosa do que a viola e a rabeca.


A contribuição da prática desse instrumento para o desenvolvimento dos ritmos tradicionais do forró ao lado da trajetória vitoriosa da saga de Luiz Gonzaga na indústria do entretenimento (rádio, tv e discos), alcançando enorme sucesso com a música nordestina, incentivou muitos músicos populares do fole de 8 baixos a seguirem o mesmo caminho do ídolo. Ao lado disso, não faltaram motivos para a migração a caminho das capitais, em especial, Rio de Janeiro e São Paulo, onde se localizavam as gravadoras: as secas, a falta de emprego e os baixos salários.


As condições sociais e econômicas dos nordestinos, aguçadas por secas prolongadas estiveram na base de sucessivas levas migratórias. É próprio dos migrantes levar os seus bens, não apenas materiais, como imateriais. E Luiz Gonzaga soube expressar muito bem isso, do ponto de vista do artista nordestino, na música Pau de Arara:

“Quando eu vim do
sertão, /

seu môço, do meu Bodocó /

A malota era um saco /

e o cadeado era um nó /
Só trazia a coragem e a cara /

Viajando num pau-de-arara /

Eu penei, mas aqui
cheguei (bis) /

Trouxe um triângulo, no matolão /

Trouxe um gonguê, no matolão /
Trouxe um zabumba dentro do matolão /

Xóte, maracatu e baião /

Tudo isso eu trouxe no meu matolão”.

O seu sucesso, como dos demais artistas nordestinos que chegaram à indústria fonográfica foi em ecorrência desse intenso processo migratório.
No Sul do Brasil, o nordestino buscou refazer, dentro do que lhe era possível, reconstruir a vida com os hábitos e costumes de sua terra. As festas, as músicas, as feiras eram formas de manter viva a sua cultura.
Assim público e artistas se encontraram em sua cultura e encantaram tantos outros que se reconheceram como parte de um Brasil profundo.

As apresentações em rádios e os espetáculos públicos foram as primeiras manifestações de reconhecimento artístico e de público dos folistas de 8 baixos, que despertaram os produtores musicais para o potencial de mercado dessa prática musical. As gravações dos primeiros discos dos folistas não tardaram a acontecer, dando surgimento, entre os anos de 1953 e 1964, a um período fértil de produções fonográfica (PERES, p. 150).
O repertório musical do fole de 8 baixos que era compartilhado no meio familiar ou comunitário com baixa circulação, passou, com o advento do rádio e do disco, a circular em território nacional. A influência da indústria fonográfica e da radiodifusão foi imensa. Boa parte do repertório dos músicos formados nessa época foi constituída nessa esteira. Muitos tiveram o rádio e o disco como estímulos para o aprendizado e se desenvolverem como músicos populares, profissionais ou não. As músicas levadas no matolão de alguns retornavam com força para os lugares mais longínquos.
A popularidade alcançada pela música regional propiciou o surgimento de fábricas de sanfonas nacionais no Sul do Brasil, como a Hering e a Todeschini, decorrente do desenvolvimento do mercado brasileiro, que permitiu a redução do preço do instrumento e facilitou o acesso. Essas fábricas se mantiveram em atividade até aproximadamente a década de 1970, quando começaram a enfrentar a concorrência de instrumentos eletrônicos como a guitarra que formava público para uma nova produção artística que iria crescentemente ocupar a indústria fonográfica. Nesse contexto, apesar da existência de algumas fábricas, o mercado de sanfonas de 8 baixos, a partir de então, restringiu-se aos instrumentos nacionais e importados usados. Também é nesse quadro que ganhou importância o trabalho de artesãos afinadores e restauradores de instrumentos. No momento de maior sucesso dos tocadores de fole, eles eram mantenedores de uma afinação do fole de 8 baixos essencial para a identidade da música nordestina, afinação esta característica e prevalente nessa região, bem como em momento posterior de declínio (anos ’90 em diante), como detentores de um conhecimento tradicional que está cada vez mais raro de encontrar.

A substituição da sanfona de 8 baixos pela sanfona de 120 baixos, que vinha ocorrendo como processo natural de supremacia tecnológica (instrumento mais fácil de executar e melhor para o acompanhamento) nas primeiras décadas do século XX, teve uma resistência com a gravação de discos por diversos folistas. Ainda assim, muitos tiveram que aderir ao uso da sanfona para seguir com suas carreiras artísticas. Passada essa época, praticamente desaparece dos meios de comunicação e entretenimento, volta a perder espaço e fica restrita à alguns praticantes no interior do Brasil.

Com o advento da internet, das redes sociais e dos novos e avançados meios de comunicação, os tocadores de fole de 8 baixos e/ou familiares tem feito a sua própria divulgação e constituído novas redes de inserção, transmissão e trocas de experiência. É possível ver diversos praticantes com circulação extensa de repertório. No entanto, encontram- se, em sua maioria, descontextualizados, sem indicações do repertório quanto ao título, autoria e território em que atuam.

O Convênio para a “Salvaguarda do Fole de Oito Baixos no Estado da Paraíba”

A motivação dessa pesquisa foram as menções recorrentes dos forrozeiros da vinculação do referido instrumento na execução das matrizes do forró, nos contextos de festas do Nordeste brasileiro e de quanto o uso desse instrumento vem declinando na prática musical dos artistas nordestinos, sendo constantemente substituído pela sanfona de 120 baixos, traçando um quadro dramático, cujo contexto concorria para um risco elevado de desaparecimento do cenário artístico e cultural da Paraíba. Em face disso, foi necessário que se fizesse uma ação imediata para a salvaguarda emergencial do Fole de 8 Baixos com uma pesquisa que envolvesse a identificação dos folistas, a documentação sobre o fole e que traçasse um quadro da situação da prática desse instrumento nas regiões de maior referência sobre o seu uso, apontando as sugestões para promoção, preservação e proteção.

Essa pesquisa dialoga diretamente com o processo de Registro das Matrizes do Forró como Patrimônio Cultural Brasileiro, uma vez que o Fole de 8 Baixos é um instrumento seminal para o forró instrumental, tocando os ritmos tradicionais que estão abrigados nas festas denominadas de forró. Nos bailes dos sítios e cidades do interior, nas festas de casamento, batizados, aniversários e tantas outras, o fole tocou xotes, baiões, cocos, rojões, xaxados, arrasta pé, etc. Instrumento bissonoro com preponderância da afinação transportada, foi rapidamente assimilado pelos artistas populares em função da durabilidade da afinação e da sua potência sonora, em épocas que não se contava com a amplificação dos instrumentos. Assim, eles se destacaram na preferência dos músicos e dos dançantes das festas populares, criando uma espécie de idioma sonoro em que timbres, ritmos e melodias remetiam à paisagem interiorana e rural do Nordeste e aos costumes, hábitos e sotaques dos nordestinos.

Ele esteve presente como um dos principais instrumentos no contexto cultural dos festejos no Nordeste, circulando com os ritmos tradicionais da região e com repertório de composição musical coletiva e pessoal (PERES, 2013, p.225). Do século XIX até meados do XX, não havia preocupação em demarcar autoria, prática que sofre algumas alterações com a chegada da música ao disco e aos meios de comunicação de massa. O prestígio estava muito mais direcionado ao domínio do repertório e à habilidade na prática do instrumento. Esses dois aspectos, aliados à capacidade de passar longas horas tocando bem eram os elementos definidores do que vinha a ser grandes tocadores de fole de 8 baixos. A música de Antônio Barros é ilustrativa dessa situação em relação aos sanfoneiros nos bailes de forró:

O forró daqui é melhor do que o teu
O sanfoneiro é muito melhor
As moreninhas a noite inteira
Na brincadeira levanta pó.
É animado ninguém cochila
Chega faz fila pra dançar
E na entrada está escrito
É proibido cochilar.

É proibido cochilar
Cochilar, cochilar
É proibido cochilar
Cochilar, cochilar.
A poeira sobe, o suor desce
A gente vê o sol raiar
O sanfoneiro padece
Mas, não pode reclamar.
Se está ganhando dinheiro
É bom dinheiro ganhar
E ele leu na entrada
Que é proibido cochilar.

Como um instrumento prevalente das festas de forró de música instrumental, foi no contexto dessas festas que os folistas de 8 baixos desenvolveram os principais aspectos definidores da sanfona de 8 baixos nordestina, dos quais destacam-se a preponderância da mão direita em melodias ágeis, o uso contido do fole e o uso de harmonias intrincadas (PERES, 2019,p 25). Essas características foram desenvolvidas em conjunto com o uso de uma afinação do fole bem particular entre tocadores nordestinos, a afinação transportada. O transporte, como mencionado pelos tocadores, é feito por artesãos afinadores ou por eles próprios que, no exercício dessa atividade, desenvolveram essa habilidade. O instrumento vem de fábrica com a afinação natural onde as melodias transitam entre sete notas (dó, ré, mi, fa, sol, lá, si), enquanto na afinação transportada nordestina passou a contar com sustenidos e bemóis, propiciando maior abrangência melódica e versatilidade ao instrumento (2019,p 28).

Imerso numa extensa tradição da cultura oral brasileira, o aprendizado se dá pela observação atenta, por ouvir com constância, e pelas informações orais que se dá entre os praticantes. E isso somente era possível pela convivência social na prática desse instrumento, o que explica o aprendizado ter se dado em grande parte na família ou na comunidade de vivência desses músicos. No dizer de muitos tocadores, foi arte aprendida, mas que não foi ensinada. É recorrente entre eles o relato de pegar o instrumento escondido do pai para ensaiar as primeiras notas e que a autorização de uso somente vinha quando o garoto, flagrado nesse exercício, já demonstrava alguma habilidade e capacidade de execução de algumas músicas. É certo que a chegada da execução da música nordestina com o fole de 8 baixos no rádio e no disco exerceu forte estímulo nos jovens para o desejo de se iniciar na prática musical do instrumento. Além de querer acompanhar o pai nas festas, passou a ter o desejo de se tornar músico profissional.

As influências artísticas antes restritas aos grandes tocadores que se via em festas e bailes como Zé Tempero e “Seo Dideus” em Campina Grande, Alípio em Taperoá, etc., agora tinham os folistas que gravaram discos e que tocavam nas rádios como referências. Assim, Zé Calixto, Abdias, Geraldo Correia, Zé do X, para ficar apenas nos paraibanos de grande expressão, serviram de inspiração das gerações seguintes de folistas. É em função da expressão do fole como uma música de traço genuinamente nordestino e com tantos músicos que fizeram sucesso no cenário fonográfico brasileiro da música regional, que Luizinho Calixto afirma que a identidade cultural da Paraíba é o fole de 8 baixos. Ele diz:

“A sanfona de 8 baixos é o retrato do Estado da Paraíba. A Paraíba é o Estado que produziu a maior quantidade do mundo e os melhores também. Zé Tempero, Cassiano, Zé do X, Zé Aragão, Sebastião Secundino, Geraldo Correia, Manoel Tambor, Abdias (pai de Abdias), Abdias, “Seo Dideus”, Zé Calixto, Bastinho Calixto, Adolfinho, Sivuca e tantos outros.” (Comunicação pessoal)

Com o afastamento dos folistas da indústria fonográfica, houve um declínio muito grande do prestígio social desses músicos, inclusive no cenário das festas juninas promovidas pelas prefeituras, em que esses artistas se viram desvalorizados, quando não excluídos. Para muitos gestores públicos e produtores culturais, esses artistas passaram a ser expressão de um estilo musical antiquado, fora de moda. A prática musical ainda é mantida, mas em círculos de amigos e parentes, pequenas festas, bailes em cidades interioranas e algumas apresentações públicas.

A transmissão do conhecimento, dadas as circunstâncias, ainda continua a mesma, mas tem tido experiências de ensino formal, como é o caso do curso de fole de 8 baixos, dirigido por Luizinho Calixto na Universidade Estadual da Paraíba. Fazendo uso de uma cartilha, baseada em um método com a utilização de gráficos, que o próprio Luizinho criou, alunos fazem aulas e podem treinar e fazer exercícios em casa. Até mesmo por meio dos aplicativos de mensagens de celulares, junto com a cartilha, Luizinho tem conseguido ensinar. Essa experiência de ensino não muda o cenário artístico precário dos folistas de 8 baixos, mas dá um alento para a continuidade dessa prática em que os conhecimentos acumulados é uma das grandes riquezas do patrimônio imaterial da Paraíba.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PERES, Leonardo Rugero. Com respeito aos oito baixos: um estudo etnomusicológico sobre a sanfona de oito baixos na região Nordeste. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 2013.

_. 2 A Sanfona de Oito Baixos Na Música Instrumental
Brasileira. www.academia.edu,

https://www.academia.edu/8352965/2_A_sanfona_de_oito_baixos_na_m%C3%BAsica_instrumental_brasileira.

Acessado 12 de novembro de 2019.

Barbalho, Alexandre, e Thiago Calixto. “Toca o fole, sanfoneiro: Memórias e práticas no universo nordestino da sanfona de oito baixos”. RIF, Ponta Grossa/ PR , , vol. Volume 11, no Número 24, dez de 2013, p. 109–21.

A Pesquisa

Cidades que possuem folistas de 8 baixos

As etapas

Na primeira etapa da pesquisa foram consultados os acervos das seguintes instituições: Biblioteca Central da UFPB, Biblioteca Central da UFCG, Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDHIR/UFPB), Arquivo Histórico Waldemar Duarte (FUNESC), Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP), Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG) e Arquivo e Biblioteca Parahyba (IPHAN – PB). Além desses equipamentos, foram consultados outros arquivos identificados por sua relevância em relação à pesquisa: Biblioteca do Núcleo de Pesquisa e Documentação de Cultura Popular (NUPPO/UFPB), Museu Luiz Gonzaga(Campina Grande – PB), Acervo particular de Rômulo Nóbrega (Campina Grande – PB), Acervo particular de Leonardo Rugero Peres (João Pessoa – PB), Coleção fonográfica de Ivan Dias – disponível online através do site Forró em Vinil. Nas bibliotecas citadas, poucas referências bibliográficas foram encontradas, bem como imagens ou áudios sobre o fole de 8 baixos, o que sugere a necessidade de constituição de biblioteca específica sobre o tema.

Na segunda meta, a pesquisa de campo, realizada pelo então coordenador Leo Rugero e os dois pesquisadores, Erivan Silva (etnomusicólogo) e Darlan da Rocha(antropólogo), foi definida a partir do recorte de quatro microrregiões em que eram mencionadas como as de maior incidência do uso do instrumento, tais como:

Campina Grande, São Vicente do Seridó e Cubati – Região Geográfica Imediata de Campina Grande; Serra Branca, Sumé – Região Geográfica Imediata de Sumé; Pedra Lavrada – Região Imediata de Cuité, Nova Floresta; Camalaú – Região Geográfica Imediata de Monteiro;

Na segunda fase dessa meta, além da presença dos pesquisadores contou-se com a equipe de audiovisual, cinegrafista e fotógrafo, com seus respectivos assistentes, para realizar os registros audiovisuais com vistas à produção de documentário e de um relatório fotográfico das principais referências do fole de 8 baixos nas regiões pesquisadas na Paraíba.

A terceira etapa da pesquisa foi direcionada para a elaboração do documentário No “Tom dos 8 Baixos”, a elaboração do relatório fotográfico que resultou também em um slideshow, uma apresentação do relatório fotográfico em vídeo, a elaboração do Mapa Digital (a presente página com os registros coletados e a apresentação dos folistas identificados, bem como do Encontro de Folistas de 8 Baixos, descrito aqui.

O conjunto desses documentos, disponibilizados nesse Mapa, pretende dar conhecimento público do quadro do fole de 8 baixos na Paraíba,promovendo os artistas e contribuindo para a sua maior inserção no cenário artístico local, regional e nacional, bem como ajudar na elaboração de políticas públicas para a proteção e manutenção dessa prática artístico-cultural no Estado.

Coordenação da Pesquisa Leo Rugero Peres e Henrique Sampaio Pesquisadores Darllan da Rocha e Erivan Silva

Documentário